terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O Carvalho-cerquinho (Quercus broteroi)

A par do sobreiro, existe uma árvore que teve uma grande importância na projecção de Portugal no Mundo. Essa importância deve-se à qualidade da sua madeira, empregue na construção das naus e caravelas construídas a partir do século XV, permitindo deste modo, o desenvolvimento do sector naval e consequentemente a proliferação da língua Portuguesa por distintos continentes. Assim, a influência do povo lusitano chega aos dias de hoje, sendo actualmente a língua mais falada no hemisfério sul e a quinta língua mais falada em todo o mundo.
Contudo, os consecutivos cortes realizados de forma não sustentável conduziram à rápida redução do seu número e assim, à diminuição da sua área de ocorrência natural. No meio da comunidade científica, esta árvore é conhecida como Quercus broteroi, sendo-lhe atribuída vulgarmente o nome de Carvalho-cerquinho ou Carvalho-Português.
Quercus broteroi (Cout.) Rivas-Mart) no concelho de Benavente. Foto: Pedro Salvador (2014).

Esta é uma árvore de folhas marcescentes, não só de extraordinário interesse quanto à qualidade da sua madeira, mas também de grande valor paisagístico. Durante o Outono as folhas secam nos ramos e caiem tardiamente, por vezes só mesmo na Primavera, quando os novos gomos começam a crescer, permitindo assim, diferentes gradientes cromáticos na paisagem. Esta é uma adaptação que este carvalho criou às condições climatéricas, por se encontrar em zonas de transição de clima Temperado (árvores tipicamente de folha caduca) para clima Mediterrâneo (árvores tipicamente de folha perene). Registos antigos comprovam a sua existência em grandes extensões do território nacional, resumindo-se hoje, devido à acção antrópica, a pequenos resquícios, como barrancos ou locais de menor acessibilidade ao Homem. Neste sentido, pretende-se dar a conhecer esta fantástica árvore nacional que actualmente tanto desprezamos, mas que se encontra subjacente na história das grandes conquistas globais.

Carvalho centenário junto a Arraiolos. Foto: Daniel Bento (2010).

Em muitas das áreas ocupadas por este carvalho, encontram-se hoje povoamentos de pinheiro-bravo (Pinus pinaster) e de eucalipto (Eucaliptus globulus), crescendo descontroladamente por quase todo o território nacional. A falta de ordenamento da paisagem tem conduzido a inúmeros incêndios florestais que infelizmente lavram centenas de hectares anualmente, registando-se consideráveis prejuízos materiais e mesmo humanos. Por outro lado, observa-se uma acentuada diminuição da biodiversidade, fruto das inadequadas práticas silvícolas, através da perda de fertilidade do solo e de matéria orgânica. Mas será que queremos ignorar a identidade do nosso património florístico e transformar a paisagem em monocultura? Porque não adoptamos práticas sustentáveis que garantem e acrescentam valor ao território? 

Sobreiro centenário junto a Arraiolos. Foto: Daniel Bento (2010).

Do sobreiro é conhecida a sua capacidade de resistência aos fogos. Acredito veemente que se substituíssemos as árvores exóticas por árvores autóctones, como o sobreiro e os diversos tipos de carvalhos existentes em Portugal, nos locais apropriados, a intensidade de incêndios florestais se reduziria consideravelmente, poupando-se assim, milhares de Euros empregues no combate aos incêndios. Neste sentido, o carvalho para além de não esgotar os nutrientes do solo, contribui para a formação de matéria orgânica, através da sua folhagem que se renova anualmente. Será que não podemos potenciar melhor a produção de cortiça? Será que não podemos voltar a produzir madeira de carvalho-cerquinho de altíssima qualidade? 

Tudo isto parece-me possível se houver um correcto ordenamento da paisagem, onde cabe também a produção de árvores exóticas, mas em locais apropriados e não em superfícies onde deveria dominar a floresta autóctone. Deveríamos apostar naquilo que é nosso e não no que outros países também conseguem produzir, evitando assim, a baixa competitividade em determinados sectores.   

Por último, quero salientar que a utilização de árvores folhosas contribuem para o incremento da fertilidade dos solos, para o melhor controlo dos incêndios florestais (quando aplicadas em mosaicos descontínuos) e ainda para a biodiversidade. Assim, com a utilização do carvalho-cerquinho estamos a contribuir para a sustentabilidade e a valorização do património florístico e identitário da nossa paisagem.   

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